Álbum de Viagem
TV Arcoiris
Porta do Banheiro
Pra que levar a vida tão a sério, se você nasceu de uma gozada?
É fazendo merda que se aduba a vida.
É melhor um peito na mão que dois no sutiã.
Caguei na prova de física, por isso vou cagar aqui também.
Quando sento neste vaso sanitário… Sinto uma tristeza profunda! A bosta bate na água… E a água bate na bunda!
Foi aqui mesmo, seu moço! Caguei um troço tão grosso… Que pensei estar cagando o pescoço!
Se burro fosse bala e idiota fuzil, esta escola estava pronta pra defender o Brasil!
Mulher feia é igual pantufa, dentro de casa até que é confortável, mais na rua... dá uma vergonha!!!
Mulher é que nem pipoca. Enche o saco mas eu não paro de comer.
Nos momentos difíceis da vida, adote a filosofia do cavalo no desfile de sete de setembro: andando, cagando e sendo aplaudido.
O bom de usar dentadura é poder escovar os dentes e cantar.
O amor é uma chama eterna. Se essa chama se apaga... Foda-se, compre uma lanterna.
Não adianta ser rico e usar roupa de marca, se o melhor da vida a gente faz pelado.
Ironia do destino é quando um jardineiro tem um filho florzinha e uma filha trepadeira...
A diferença entre cagar e fazer sexo anal é apenas vetorial... (no banheiro de física da USP)
Amar sem ser amado é pior que limpar o cu sem ter cagado.
Se o Batman é tão esperto, por que ele usa a cueca sobre a calça?
Viado é assim: tudo que vê, lê. (no banheiro de escola pública)
Viajei o mundo inteiro, nunca vi banheiro assim. Não seu se é eu que cago nele, ou se é ele que caga em mim! (em barraca-banheiro imunda, na subida do Monte Evereste)
O banheiro da Central tem uma coisa diferente: a gente não caga nele,
ele é que caga na gente. (no banheiro da Central do Brasil)
Escrevi e saí correndo, pau no cu de quem tá lendo.
FAX. Remetente: senhor Barroso.
Não perca tempo lendo frases de banheiro. No fim, tudo sempre acaba em bosta.
Antes eu era indeciso. Agora... agora... não sei.
K H 100 H char é 1/2 A/ (Cagar sem agachar é meio arriscado).
O peido é o funcionário maroto que vem do intestino pra avisar pra chefa bunda que o trem bosta já vem vindo. (no banheiro de uma estação)
Se cu fosse ruim, Deus fazia ele quadrado e cheio de espinhos!
O peido tem que ser falado Ou ao menos estrondoso Porque aquele que é fanhoso É um peido desconsolado.
Triste vida, triste sina Ser poeta de latrina.
Lá fora voce é valente,
aqui você é cagão.
Não caga cantando que a merda sai dançando.
Lá em Pelotas, seu moço, até barco argentino, quando chega, apita grosso quando volta, apita fino.
Aqui termina a obra de um grande cozinheiro, olha a cagada que você está fazendo!
Por que mijas fora se no entanto cagas dentro? Ou tu tens o pinto torto ou a bunda fora do centro!
Bosta não é tinta, dedo não é pincel, pra limpar a bunda, favor colocar papel.
Se merda fosse dinheiro, pobre nascia sem bunda.
Beijo não mata a fome,
mas abre o apetite.
O peido é o grito de liberdade
da merda oprimida.
Pego um papel higiênico, passo aquela lixa na bunda. Aperto o botão da descarga, mas a merda não afunda.
Cagar é a lei do mundo.
Cagar é a lei do universo.
E foi assim, cagando, que eu fiz este verso.
Aqui neste recinto fechado é
Onde toda vaidade se acaba!
Até o covarde faz força
E até o valente se caga.
Se você é feio, pobre e burro e, mesmo assim, tem um monte de mulher dando em cima de você,
só tem uma explicação: você mora embaixo de um puteiro.
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Bem-vindo ao Botequim Digital. Aqui você é quem manda. Chegue mais, Fala Freguês! Entre e ponha em dia suas histórias no Papo de Botequim, dê uma olhadinha nos Versos de Guardanapo e, antes da Saideira, rabisque uma frase na nossa Porta do Banheiro. Vá lá, não se acanhe, escreva sua frase em nosso minipost aí ao lado, ou mande por e-mail que a gente publica. Se quiser saber mais sobre mim, os lugares e as pessoas que eu amo, abra o Álbum de Família. Se preferir navegar ouvindo música, clique em uma tecla do Radiophone. E se quiser informação livre, se ligue na TV Arcoiris. Por fim, entre na Roda de Amigos e escolha o papo que lhe interessa: idéias e cultura, política e cidadania, blogosfera, futebol, música, mulher, poesia e prosa, entre outros. Entre no papo, mas não esqueça, volte sempre.
 Julho de 2006
Papo de Botequim
Sem palavras.

 Dezembro de 2005
Papo de Botequim
Um Conto de Natal
O dia amanhecera sem nuvens e o sol de dezembro prometia um céu-de-brigadeiro logo mais na hora da ceia. Saímos eu, Vanda e os meninos para os últimos preparativos da festa. Pegamos o carro e descemos a Niemeyer em direção à Gávea, cruzamos a Lagoa e ganhamos a Voluntários da Pátria sem trânsito, “um milagre, pai”, disse Guto, enquanto Alice dormia no banco de trás. Primeiro fomos ao Rio Sul comprar os últimos presentes de mamãe, da mãe de Vanda e de alguns amigos que sempre lembram da gente e nos impõem essa reciprocidade protocolar que eu particularmente detesto, mas a Vanda, sabe como é, faz questão, “puxa, bem, lembra?, no ano passado o Paulo me deu o livro do Chico e um game pras crianças!” Um livro de 16 pratas na promoção e um joguinho pirata daqueles que vendem na Uruguaiana, mas e daí?, pra Vanda o que valia mesmo era o espírito natalino, a lembrança.
Rodamos meia hora até encontrar uma vaga no G-5, lá no fim do estacionamento, atravessamos toda a garagem até a entrada para a escada rolante e mergulhamos no shopping. As luzes feéricas da lan house, o zunzunzum do consumo, a decoração das vitrines, as pessoas com sacolas cheias, filhos e pais aflitos, rostos cansados de felicidade e o sorriso de Vanda e das crianças me deram uma sensação ambígua de prazer e desespero. Minha vontade foi sair correndo, mas me submeti ao ritual e fui de loja em loja até o último presente, um porta-retratos de madeira e prata para Ana Maria, esposa do Paulo – ele vai ter de se contentar mesmo com um CD de sucessos dos Beatles que foi o que deu pra comprar, mas acho até que ele vai gostar pois até hoje vive nos anos 60, pelo menos em termos de música.
Já passava das 4 horas da tarde quando fomos à praça de alimentação e pedimos uma pizza gigante de tomate e rúcula, uma coca pro Guto e pra Alice e um guaraná pra mim e pra Vanda, “uma delícia”, na opinião de quem mais entende do assunto, a Alice. Paguei a conta rapidamente, pegamos o carro e fomos ao supermercado comprar o vinho, o champanhe, as cervas e as frutas para compor a mesa. No estacionamento, Alice estranhou as crianças descalças que pediam esmola junto com a mãe, uma negra de uns 35 anos aparentemente saudável e que também estendia a mão enquanto dava o peito murcho ao bebezinho magro de cabelo encarapinhado que parecia dormir em seu colo. Deixei cair umas moedas na mão da pobre mulher, que agradeceu sem convencer, e entramos no mercado. “Papai, eles não tem casa não?”, perguntou Alice. “Não sei, filha, acho que não”, respondi surpreso com a observação de minha filha, que tinha apenas 5 anos.
Compramos as bebidas e frutas o mais rapidamente possível, pagamos com o cartão e fomos embora, quando as primeiras luzes já anunciavam a noite de natal. Ao pegarmos o carro, notei que a mulher já não estava lá com as crianças, “deve ter ido pra casa”, pensei sem eu mesmo acreditar no que dizia. Chegamos exaustos a São Conrado, entramos no prédio, demos um feliz natal pro Antônio, nosso porteiro, e subimos com as compras.
Abri a enorme porta envidraçada da varanda e deixei entrar em minhas retinas as luzes da Rocinha que, de longe, lembravam um presépio de cores e luzes. Vanda rapidamente pôs a mesa e foi se arrumar junto com as crianças para esperar os convidados, enquanto eu cochilava um pouco na varanda, embalado pela suave brisa do mar. Acordei com o barulho dos tiros e as balas traçantes cruzando o ar como estrelas de Belém sem rumo, anunciando o desespero e a desesperança. Mal percebi o que estava acontecendo quando o impacto da bala projetou meu corpo contra a vidraça estilhaçando o vidro e meus pensamentos. Pus a mão no peito e senti o líquido morno brotando do furo e umedecendo a camisa. Foi tudo rápido. Lembro-me de ter gritado “Vanda!” e ver o desespero em seus olhos e ouvir os gritos das crianças e perder as forças e pensar “Meu Deus, não me deixe morrer” e dizer pra Vanda “não dói” e ela ao telefone e os convidados chegando sorrindo e meus pais e eu menino e as sirenes e o médico dizendo “sinto muito” e a mesa com as frutas e as velas acesas e as luzes se apagando e mais nada, além da frase escrita na guirlanda da porta: Boas Festas, Feliz Natal.
Nivaldo Lemos
20/12/2005
Versos de Guardanapo
Perfil da Primavera
Nivaldo Lemos
Marinheiro das estrelas absolutas,
eu me afogava no crepúsculo invisível das estátuas,
sonâmbulo tronco, como o ventre da última colméia,
onde meninos inventavam o mundo,
entre o doce pânico do mel e o violino das abelhas.
Na paisagem de minha solidão lunar,
apenas o arco distendido das angústias.
Mas, entre os corpos e a dança silenciosa,
o relâmpago dos teus olhos explodiu no infinito dos meus,
acordando as pálpebras assustadas do desejo
que brincavam na cereja púrpura do Campari,
como beijos dourados de abelhas embriagadas.
Eras uma fogueira de jasmins incendiados,
como as espumas comovidas de um oceano boreal,
onde eu colhia o vinho, o trigo, a rosa marítima dos teus beijos.
Que anjo mágico ou pássaro planetário
esculpiu teus seios como quem inventa a febre,
o fogo, o lírio, a asa nua do prazer?
Que mecanismo fez teus lábios flor do açúcar,
gota de aurora, brisa vertiginosa das salivas?
Abraço teu corpo como quem desfruta o vôo das estrelas,
noturno, silente, sideral.
Estranha geografia do teu corpo,
em cuja pele habitam borboletas incendiadas
e onde os anjos açucarados das manhãs
fabricam a saudade a cada ausência,
como quem recolhe o perfume amarelo das laranjas:
entre a solene poesia e o infinito transitório do silêncio.
Ah, Lena, o meu desejo é como um lírio acorrentado à lua,
que espera pacientemente a bailarina-ninfa do teu corpo,
como um pássaro enamorado pelas nuvens que descobre no infinito a pele macia da aurora nua.
Saideira
Nota fúnebre
Salim vai ao jornal colocar um anúncio. — Gostaria de colocar nota de falecimento da minha esposa - diz à atendente. — Pois não, quais são os dizeres? — “Sara morreu!” — Só isso? - perguntou a moça. — Sim, Salim não quer gastar muito. — Mas o preço mínimo permite que o senhor ponha até cinco palavras. — Ah, então coloca: "Sara morreu. Vendo Monza 94."
 Novembro de 2005
Papo de Botequim
Cinzas e diamantes
“Resposta à gentileza: morrer não foi perder,
foi acrescentar a formosura.
Quanta vantagem faz a formosura
do Espírito à formosura do corpo.
Maria enterrou-se flor para se congelar diamante;
desfez-se em cinzas para se formar em estrela.”
(Sermão nas exéquias de D. Maria de Ataíde,
Padre António Vieira)
Santa Filomena era daqueles lugares estranhos que só existem na imaginação dos loucos e dos poetas, e onde os acontecimentos muitas vezes me faziam ao cabo de um tempo duvidar se de fato haviam ocorrido ou não passavam de lendas como as que costumava ouvir da boca de Pedro Nega, um doido manso que tinha por hobby assustar a molecada com suas histórias de horror e encantamento recheadas de mulas-sem-cabeça, sacis, boitatás e o mais que sua imaginação permitisse. Pois foi uma dessas histórias que só os loucos concebem que deixou a cidade consternada e marcou para sempre em minha memória aqueles poucos anos que lá vivi. Aconteceu no terceiro quartel do século XX e envolveu a professora de português Esmeralda K. e seu marido coronel Fred Kimberley, um engenheiro civil e paisagista sul-africano que, chegando à cidade no início do século, contratou-a para aprender a língua e o fez tão bem que acabou conquistando-a e com ela construindo uma história de amor cujo final até hoje me intriga e enleia a imaginação.
O coronel não gostava da patente fajuta que, a bem da verdade, lhe fora atribuída pelos moradores da cidade e traduzia apenas a maneira simples com que o povo do interior costuma distinguir os que conseguem algum prestígio na comunidade, seja ele econômico, político ou social. Ou mesmo os três juntos, o que, aliás, é mais comum, embora nenhum destes fosse o caso de Fred Kimberley, que impôs respeito mais pelo jeito afável e solidário com que se relacionava e exercia seu conhecimento. A profissão não lhe rendeu muito dinheiro, apenas o suficiente para, aos 98 anos, desfrutar com Esmeralda o conforto de uma casa ampla e agradável, de três quartos e com um belo jardim e um quintal cheio de árvores frutíferas, onde ele cultivava o hábito de plantar espécimes da flora brasileira, entre os quais tinha preferência por um frondoso acaiacá (Cedrela fissilis), árvore da família do cedro que algumas tribos nativas consideram sagrada e que, anualmente, se engalanava de flores e atraía muitos pássaros, além de fornecer a sombra que refrescava a varanda dos fundos da casa, onde ele costumava deitar-se para meditar. Como engenheiro e paisagista, sempre soube valorizar a harmonia entre o concreto e o verde, entre as necessidades do corpo e do espírito, pendendo para este, o que muitas vezes o aproximava mais dos poetas que dos calculistas.
Foi assim quando declarou seu amor a Esmeralda com um poema que, mesmo tantos anos depois, ainda o levava a identificar nele, sem falsa modéstia, uma certa qualidade literária, especialmente na estrofe em que descrevia seus sentimentos e desejos:
O dia nasceu e adolescentemente se vestiu
de chitas, sedas, algodões e tafetás pintados,
acordando o poeta que se reiventava na infância
e amava à beira da janela as pernas da vizinha,
enquanto o vento escondido na cortina
levantava a saia branca da manhã
e beijava solenemente, quase em prantos,
o rosto de Esmeralda, noiva-ninfa poesia,
no parapeito de minha solidão.
Esmeralda, que também se chamava Maria mas odiava o primeiro nome, mesmo aos 90 anos ainda guardava a folha amarelecida pelo tempo onde seu amado traduziu com palavras tão lindas o que nutria por ela, um sentimento tão profundo e intenso que ela jurava haveria de sobreviver ao tempo e – quem sabe – à própria morte. E sempre que chegava uma visita um pouco mais íntima, lá se ia com as mãos já trêmulas de velhice e os olhos embaçados pela catarata mostrar o poema esmaecido. Quase toda a cidade já lera Minha Esmeralda e sabia de cor alguns trechos. Orgulhoso, o velho Kimberley apenas entrelaçava as mãos nas dela e sorria, retribuindo em silêncio aquele amor depurado pelo tempo e que a todos ainda admirava de tão forte e obsequioso.
Assim o coronel e sua esposa passavam a maior parte do tempo, sentados na varanda da casa de mãos dadas e recebendo os amigos dos tempos em que cidade tinha poucas casas e todos se conheciam pelo nome. Pois nos anos em que os conheci, mesmo ainda pequena, Santa Filomena já não era aquele povoado de duas ou três ruas com um comércio acanhado, a capela da padroeira que lhe dava nome e o grupo escolar onde se conheceram em tempos idos. Não, a cidade agora tinha rodoviária, farmácia, campo de futebol, casas com parabólicas, carros – poucos é verdade, mas tinha –, prefeitura e posto de saúde modernos e até um shopping, o Filomena’s Malll, ícone da modernidade e orgulho da cidade. Todavia, ainda era um lugar tranqüilo, desses que a gente encontra no interior e onde a vida parece se arrastar descalça e os dias se repetem um após outro, interrompidos apenas pela escuridão da noite.
Pois foi num dia desses que de tão comuns nada prometem que aconteceu o inusitado – a casa dos Kimberley não abriu portas ou janelas como de costume e o sol ficou o dia todo ali de plantão, contido, sem poder entrar, até que a lua o substituiu no turno da noite e as estrelas e vaga-lumes acenderam e apagaram e outra manhã chegou e mais dois ciclos se cumpriram até que na quarta noite a cidade testemunhou um fenômeno extraordinário: um raio vindo não se sabe de onde atingiu e pôs abaixo a casa dos Kimberley, ricocheteou no chão e voou até o velho acaiacá florido no quintal, carbonizando-o de cima abaixo como uma serra de luz, matizando de azul a noite branca de lua. Foi um susto medonho, um verdadeiro horror. A cidade toda acorreu ao local, uns por curiosidade, outros por sincera solidariedade, a maioria estarrecida. Dezenas de mãos atravessaram a noite revirando os destroços na esperança de encontrar alguém com vida, num esforço vão.
O dia amanheceu e, para espanto e perplexidade de todos, sob os escombros e as cinzas ainda fumegantes não encontraram ninguém. Onde se erguia a casa, descia agora uma cratera, como uma enorme pira crematória, de cuja base irradiava-se uma intensa luz azulada. Conta-se – e isto, confesso, não me lembro – que no desespero de encontrar vestígios de Esmeralda e seu amor, os moradores seguiram aquela luz até o fim da cavidade aberta no solo pelo raio e, lá chegando, descobriram duas imensas gemas incandescentes que irradiavam um brilho jamais visto – eram dois diamantes puros, um ao lado do outro, lapidados parecia há séculos.
Na época não se soube explicar o fenômeno e, só muito tempo depois, vim a saber que o carbono – elemento abundante no corpo humano –, quando submetido a altas temperaturas e a grande pressão, transforma-se em diamante. Não se sabe como, mas o impacto e o calor provocados pelo raio haviam transformado Kimberley e Esmeralda literalmente em diamantes. E, como ela dizia – embora jamais imaginasse como –, o amor que sentiam um pelo outro sobreviveu assim à própria morte, sublimado naquelas gemas azuis, chamas vivas de uma memória que – verdade ou mentira – ninguém jamais saberia ao certo.
Nivaldo Lemos Rio de Janeiro, 25/11/2005
Versos de Guardanapo
Preparação do Amor
Nivaldo Lemos
Quando, em oposição à forma,
o poeta se transporta ao nada,
entre o instante real
e a construção dos sonhos,
nasce a angústia, a ânsia da espera.
Dos negros pelos da noite
brotam desejos líquidos,
depositando no branco dos lençóis
o cheiro ácido do sêmen,
e a realidade foge pela janela.
Como anzóis jogados ao acaso,
o poeta mergulha no inconsciente
e o seu corpo se entrelaça em algas
de puras amarguras, como pedras,
como a lasciva hora de amor e de loucura!
E, com os cabelos revoltados,
ele revolve o corpo e morde
e rasga e ama e baba e fere
o corpo vencido da amante,
e uma borboleta de pelúcia agoniza
no sexo transido de prazer.
Ai, momento que respira a eternidade,
flutua na mansidão das carnes,
como o quarto adormecido de um hospício!
Ai, vento que navega sobre as tetas mornas,
soprando leve nos seios doloridos,
arrefeça a chama da língua irrequieta!
Pois é na contradição da lógica
que corroemos o remorso das
consciências pranteadas!
E é na imprevisão da espera,
na sensação de perseguir nuvens fugazes,
no arrepio de braços recostados,
na malícia ingênua dos olhares líquidos,
que preparamos o infinito instante do amor.
Saideira
A filha não aparecia em casa há mais de 5 anos. Quando ela volta, seu pai dá a maior bronca:
- Onde você estava nesse tempo todo, desgraçada?! Por que não escreveu sequer uma notinha dizendo como estava? Por que não telefonou? Miserável! Não sabe como a sua mãe tem sofrido por sua causa!
A garota, chorando:
- Snif, snif... Pai....Virei prostituta...
- O quê?! Fora daqui, sem-vergonha, ordinária, pecadora, vergonha da família, não quero te ver nunca mais!!!
- Tá bom, papai. Como o Sr. quiser... Eu voltei aqui somente para dar este casaco de pele e as escrituras da minha mansão do Morumbi para a mamãe; uma caderneta de poupança no valor de 5 milhões para o meu irmãozinho e, para você, paizinho, este Rolex de ouro puro, o BMW zero que está lá na porta e um titulo vitalício do Jockey Club... e um convite para todos passarem o réveillon a bordo do meu iate em Búzios e....
- Filhinha, você disse que tinha virado o quê, mesmo?
- Prostituta, papai, snif, snif...
- Ahhh, bom! Que susto você me deu!... Eu tinha entendido protestante!!!
 Novembro de 2005
Papo de Botequim
O cheiro doce de maçã verde
"Alinhe-os contra uma parede. Fuzile-os e observe-os morrendo. Adoro ouvir sua agonia: Eles vomitam, gritam e choram."
(Poema de Mieske, jovem americano preso nos EUA pela morte de um mendigo. Citado por Alba Zaluar, caderno Mais, Folha de S. Paulo)
Michel caminhava pela Avenida Rio Branco rente aos prédios de arquitetura art déco, tentando se proteger do pé-d’água que desabava. O terno de linho puído de cor cinza mal ajambrado sobre a camisa de cambraia verde berrante e uma gravata francesa de listras azuis e brancas fazia uma combinação improvável que só a penúria explicava. Aos 58 anos, ele arrastava na calçada a memória de antigos passos de quando ainda era respeitado como mestre Louis Michel. Acabara de sair pela enésima vez da agência de empregos e ouvira a mesma resposta: “Desculpe seu Michel, mas o mercado está difícil, o senhor sabe. Ainda mais na sua idade... Volte semana que vem, quem sabe?”. Ainda tentou argumentar: “Não tem nada mesmo? Na área administrativa... Qualquer coisa serve, não importa, eu...”, mas desistiu. Desceu no velho elevador de porta pantográfica, agradeceu ao ascensorista e ganhou a Sete de Setembro aniquilado. Na esquina da Primeiro de Março, entrou num boteco, pediu uma dose de cachaça e tomou num gole, sentindo o líquido queimar a garganta e aquecer lentamente o corpo e a alma. Cuspiu de lado e se dirigiu à Presidente Vargas ainda com um fio de saliva equilibrando-se entre o canto esquerdo da boca e a gravata. Atravessou a avenida, sentou-se num banco da Praça Pio X e ficou ali com os desocupados, olhando com tristeza o movimento dos carros e das pessoas. Do outro lado viu o bando de meninos de rua que cheirava cola e brincava sob as marquises dos prédios que ladeiam a igreja da Candelária, de onde o som de um piano e um coral ensaiando Jesus, Alegria dos Homens, de Bach, o lembraram de que era o último dia do ano. Olhou o relógio da Central do Brasil e viu que já era quase noite e não chovia mais.
– Feliz ano-novo!, gritaram da janela de um escritório jogando papéis picados que no lusco-fusco da tarde se confundiam com a revoada de pombos que vivem no teto da igreja e nos parapeitos das janelas. Olhou ao lado o mendigo que dormia bêbado de cachaça e fome e não soube dizer o que o separava daquele farrapo humano. Não sabe por que, lembrou-se da viagem que fez a Paris no réveillon de 2001 a convite da Aliança Francesa como prêmio por seus 34 anos de dedicação à filial brasileira de Botafogo, onde começara aos 20 anos e até um ano atrás, antes de ser dispensado, era tido como o melhor professor da língua Victor Hugo. Fora uma viagem memorável aquela à França. Hospedara-se no segundo andar do Sofitel Centre Paris La Défense, um hotel confortável que fica a poucos minutos dos Jardins du Champs Élysée e da Place de l'Etoile e de cuja janela podia ver as famosas luzes de Paris. Estava feliz pelo reconhecimento ao seu trabalho e à meia-noite – lembra-se bem – chegou à janela para comemorar a data com um legítimo Moët & Chandon: “Vive la France!”, exclamou provocando uma revoada de pombos brancos que se protegiam do frio no calor do ar condicionado. Aguçou os olhos e o olfato para acompanhar o vôo das aves e o cheiro adocicado de maçã verde do Moët & Chandon que se evolavam no céu iluminado da capital francesa: “Feliz ano-novo!”, disse para si mesmo, alegre e emocionado.
Estava radiante e um fato inusitado marcaria para sempre aquele dia em sua memória: o rufar das asas brancas dos pombos e a explosão dos fogos e champagnes que saudavam o novo ano lentamente fundiram-se a gritos e explosões que subiam da rua, trazendo para sua pequena festa a dor e a miséria que ele desconhecia existir em Paris. Da janela do quarto viu horrorizado um bando de meninos e meninas de rua gritando, quebrando e incendiando o centro de Paris, numa explosão de violência absurda.
– Liberté, travail et fraternité!, gritavam trocando o “égalité” do velho slogan revolucionário por “travail”, em protesto contra o desemprego imposto pela economia globalizada, que lhes negava justamente o trabalho e a igualdade que fizeram da França o berço da utopia social no final do século XVIII. A cena despertou em Michel um misto de alívio – afinal, ele estava empregado – e de angústia por se saber impotente diante de forças tão poderosas.
– Meu Deus, mas o que é isso! – exclamou enquanto pedras e coquetéis molotov cruzavam o ar e o concierge do hotel tocava a campainha do quarto para tranqüilizá-lo:
– Não se preocupe – disse num francês arrastado de imigrante –, nosso hotel é seguro e eles nunca conseguirão entrar.
– Mas quem são “eles”?, lembra de ter perguntado.
– São a escória de Paris, vagabundos e desempregados, filhos de imigrantes ilegais que ultimamente têm aumentado muito aqui na cidade – respondeu o concierge, sem se dar conta de que ele próprio era um imigrante, o que não deixava de ser irônico.
A maioria daqueles meninos – Michel soube depois – era descendente principalmente de marroquinos, argelinos e tunisianos que moravam nas cités, habitações miseráveis localizadas nos bairros da periferia de Paris conhecidos como banlieues e que lembram, mal comparando, os conjuntos do BNH construídos no Brasil para abrigar negros e migrantes nordestinos expulsos das favelas pelo avanço da especulação imobiliária. Ainda hoje guarda nítida na memória a imagem dos jovens vestidos de djellaba (uma espécie túnica magrebina), o grito gutural das meninas muçulmanas e o brilho dos punhais que eles esgrimiam sob as luzes da Grande Arché de La Defénse como símbolos do que lhes restava da identidade árabe. A exemplo dos meninos de rua do Brasil, eles também eram massacrados pelas drogas, a fome e o abandono da sociedade.
Exatamente à meia-noite, suas lembranças de Paris foram interrompidas pelos estampidos de armas e pelos gritos dos meninos da Candelária, que corriam assustados para todos os lados com os cobertores sujos colados ao corpo, como mortalhas negras. Por instinto, Michel atirou-se ao chão, arrastando-se para baixo do banco, ainda sem entender o que acontecia e tremendo de pavor. Dali viu o que nem Dante foi capaz de imaginar em sua Divina Comédia: uma dezena de homens armados, com os rostos encobertos com toucas ninjas e dizendo-se policiais disparavam suas armas sobre os meninos ainda sonolentos e desorientados, transformando a entrada da igreja na verdadeira porta do inferno.
– Feliz ano-novo! – gritavam abrindo fogo e iluminando a noite de révellon com as luzes que saíam dos canos dos revólveres, pistolas e submetralhadoras.
– Filhos da puta, querem cear?, pois tomem azeitona! – e disparavam nas costas dos que tentavam fugir, sorrindo da piada macabra e deixando Michel estasiofóbico.
– Moço, mata não moço – suplicou o menor que aparentava não mais de 10 anos.
Como resposta, o homem branco e magro deu três tiros na cabeça do menino, projetando seus miolos na placa de amianto da banca de jornal fechada. Michel rezava quando o último menino ainda tentou correr em sua direção mas recebeu uma rajada, caindo ao seu lado já morto com os olhos arregalados. Tinha, se muito, 14 anos e o sangue que escorria do seu corpo inerte chegou quase debaixo do banco, fazendo Michel encolher-se ainda mais. O massacre não durou mais que 5 minutos e nesta curta eternidade ele contou oito corpos. Os assassinos fugiram em dois carros pretos com vidros fumês, ganhando o mergulhão da Praça XV e mimetizando-se na escuridão. Michel levantou-se, tateou o próprio corpo como para se certificar de que estava vivo e lembrou que era réveillon. A lembrança dos meninos de Paris, os tiros que ainda reverberavam em sua mente, os gritos que já não ouvia, os corpos, os sinos da Candelária que saudavam o novo ano e a revoada de pombos provocaram-lhe uma espécie de déjà vù. Ele enxugou o suor da testa com a manga do velho paletó de linho e só pensou em sair dali o mais rápido possível. Olhou mais uma vez aquela cena absurda e, não sabe porque, no meio de tanto sangue e horror, sentiu de novo aquele cheiro doce de maçã verde.
Nivaldo Lemos Rio de Janeiro, 17/11/2005
Versos de Guardanapo
Enquanto não durmo
Aos notívagos que devoram noites para que brotem manhãs de sol nos que dormem.
Nivaldo Lemos
Amanhece em Saquarema,
estou envolto pelo inusitado do surgir
e nesta névoa de silêncio que se desfaz de mim
renasce uma angústia antiga:
amanhecem o mar e o céu, únicos amantes do instante.
Amanhece em Saquarema,
em minhas mãos eu premedito o sol,
artífice do tempo que lapida as horas
fragmentando a manhã que cega e embriaga...
Sinto reconstituir-se em mim um passado antigo.
Amanhece em Saquarema,
no céu, brancura de pássaros voando
como pálpebras soltas na chuva,
observando, ensinando, libertando.
E na plumagem dos sonhos,
a tecedura da manhã chuvosa.
Vestígios da noite flutuam na gaza das ondas
e as palavras que me disseram sobreviveram ao mar.
Ó, esta linguagem antiga que me persegue!
Quantas promessas desfeitas no alicerce das línguas?
Quantos homens traídos, quantas idéias?
Amanhece em Saquarema,
o infinito conversa de terra e mar
e eu descubro que já não sou
que sou apenas a hipótese de mim.
E minha retórica são as lembranças,
é a memória vaga que vaga na abstração da manhã.
Amanhece em Saquarema,
estou sentado na calçada da pracinha
e em sua laje deposito a minha memória fraturada,
o meu desgosto, a minha lástima!
O sol me beija estilhaçando os sonhos
e eu componho este poema sem vontade.
Escrevo-o com a vida!
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